Archive for Maio 2014

Pesadelo.


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                             Tiago: Primeiro dia. - Capítulo 1.



          Estava escuro, não conseguia respirar, não importava para onde eu olhava, não conseguia ver nada. Tentava sair daquele lugar, mas meu corpo não respondia, o medo me deixava imóvel, tinha a sensação que alguém me observava, mas não conseguia ver de onde ou o que era. Cada minuto era desesperador e sentia algo cada vez mais perto. O silencio era aterrorizante, conseguia ouvir facilmente as batidas do meu coração e aposto que se eu pudesse me concentrar naquele momento ouviria o barulho da minha corrente sanguínea. Alguma coisa estava vindo à minha frente, eu sentia sua presença, não era algo agradável. Pude perceber duas esferas brilhantes, elas estavam paradas, ou melhor, me observando, eram olhos. Aquilo ficou imóvel durante algum tempo, mas quando percebeu meu medo, soltou um grito tão agudo e estridente, que me deixou desnorteado, aquilo veio na minha direção como um predador atrás da sua caça. Eu queria gritar, mas eu não tinha voz, estava completamente indefeso, até que algo gelado me agarrou...

          - Querido, querido. Acorda... Você esta sonhando.

          Acordei suado e gritando, meus batimentos muito acelerados e meu corpo tremendo muito devido ao medo. Olhei para o lado procurando os braços da minha esposa atrás de um conforto, mas ela não estava lá. Estava morta a pouco mais de seis meses, de uma maneira misteriosa, desde então, tenho tido esses pesadelos. Não conseguia controlar minhas lagrimas e mesmo com tudo isso, aquilo estava ali, sentado na ponta da minha cama, me olhando, me examinando. Seu corpo magro e deformado, pele pálida, meio acinzentada, totalmente virada para frente, aquilo falava alguma coisa que eu não conseguia entender, sua voz estridente machucava meus ouvidos, aos poucos a criatura começou a virar sua cabeça para mim até eu conseguir fitar seu rosto, percebi que em seus olhos, não se via nada, somente o medo e a escuridão, eram bolas totalmente negras que às vezes pareciam brilhar. Toda a noite aquilo estava ali, esperando alguma coisa.

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          Meu nome é Tiago, há pouco mais de seis meses, minha esposa morreu repentinamente de uma doença misteriosa, nenhum médico soube dizer o que aconteceu e como ela foi tão rápido. Ela começou a adoecer aos poucos, fizemos vários exames, procuramos vários especialistas, mas não importava, todos tinham a mesma conclusão de que ela não tinha nada. Clinicamente estava ótima, mas a cada dia ela ficava pior. Ela tentava me dizia algumas coisas impossíveis de acreditar, falava uma entidade a estava matando, drenando sua energia, sua vida, que a perseguia, praguejava contra ela e todos que amava e que eu devia acreditar. Mas por causa da minha descrença no divino e todas as suas fantasias, pensei que minha esposa estava surtando e não levei a serio o que ela dizia, assim como muitos outros.

          Ela se chamava Erica, eu a conhecia desde quando éramos adolescentes e naquela época já sabia que ela era a minha alma gêmea. Lembro como se fosse ontem a primeira vez que a vi. Eu um garoto bobo de cabeça baixa na cadeira, nunca havia gostado de ninguém, até que senti um cheiro de flor passar, foi quando reparei a garota mais linda que eu iria ver em toda minha vida e por sinal meu primeiro e único amor. Por muito tempo esse sentimento ficou escondido em meu interior, não deixava ninguém saber, talvez fosse pelo medo de não ser correspondido, de não superar as expectativas dela ou do os outros ao nosso redor. Nós, humanos, passamos tanto tempo nos preocupando com o que os outros pensam que nossas decisões acabam sendo influenciadas e acabamos deixando de viver muitas coisas maravilhosas pelo simples fato de termos medo de tentar e mostrar para o mundo quem nos realmente somos. Isso acontece com todos em algum momento, e claro, aconteceu comigo.

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          Anos mais tarde, mais maduro e confiante, nos reencontramos, reuni coragem e a convidei para um café e após isso, começamos a sair, depois a namorar e um pouco mais tarde nos casamos, apesar de ter sido rápido, foi a época mais feliz da minha vida, até o dia que ela morreu em meus braços quando tentava pedir ajuda no hospital mais próximo da minha casa.

          Após a sua morte, o meu mundo desabou, não conseguia trabalhar, não conseguia conversar com ninguém, minhas refeições eram antidepressivos com grandes doses de conhaques ou qualquer outra coisa que tivesse álcool e que pudesse amenizar a minha dor. Com o tempo, os amigos foram me esquecendo, as pessoas param de ligar para saber como eu estava indo, os vizinhos param de bater na minha porta, eles deviam achar que eu estava bem, já tinha passado tanto tempo, afinal, é fácil levantar e seguir em frente, esquecer alguém que você tanto amou é muito fácil, não é mesmo? No fundo, ninguém sabe o quão grande é essa dor, até que a corda esteja apertando o seu próprio pescoço. E no meu caso doí muito mais, quando mais ela precisou de mim, quando mais ela me pediu ajuda, justamente no momento em que eu devia segura-la no meu colo e proteger de tudo e todos, eu virei as costas, a tratei como louca e negligenciei sem sofrimento. É minha culpa ela esta morta, e essa coisa sentada na ponta da minha cama é o meu castigo por ter abandonado o meu grande amor.


          Deus, sinto muito a falta dela...

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Praça maldita.


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                                  Primeiro dia. - Capítulo 1.       


                                                              Antes de escrever esses relatos, pensei muito como poderia começar. Como não cheguei em nenhuma conclusão, inicio da forma mais simples possível.
       
          Minha historia poderia ter começado de varias maneiras, mas para ser sincero o inicio não importa muito, se eu fosse rico ou pobre, bonito ou feio, magro ou gordo, não faria diferença porque o mais importante é como eu lidei com todos os desafios que viriam no meu futuro. Meu nome é William Lancaster, mas se quiser, fique a vontade para me chamar do que preferir, afinal, realmente não importa o que você pensa a meu respeito ou como deseja me chamar, ao menos, não mais.
         Tenho 23 anos, com feições normais, de sorriso normal, andar normal, olhar normal, corpo normal, vida normal, ou seja, tudo normal. Não chamo muita atenção no quesito beleza e a maior parte do tempo sou muito serio e fechado, minhas únicas qualidades são o meu grande desejo por justiça e a vontade de sempre querer ajudar os mais fracos, alias, qualidade a qual já me meteu em diversos problemas.
          A pouco tempo, minha vida era comum e sem grandes expectativas, apenas mais um vivendo nesse mar de gente que circula por esse mundo inchado e abarrotado de pessoas que não sabem o que devem fazer para viver, acreditava que havia nascido no tempo errado ou no lugar erado, sempre sonhando em fazer algo grande, algo heroico, mostrar para todos que eu estava ali, que não era só mais um, mas a única coisa de grande que eu fiz foi carregar as sacolas de pesadas de algumas senhora e apanhar muito ao tentar ajudar alguém mais fraco que eu, como você pode concluir, nenhuma aventura como meu coração desejava e sonhava desde que me entendia por gente.
          De dia, eu trabalhava em uma pequena empresa onde fazia de tudo, passava o dia fazendo trabalhos que os outros não queriam fazer. Minha função se resumia em: limpar privadas, varrer o chão, arrumar estoques, ir ao banco, trazer um cafezinho, voltar para o banco e no final das contas, ainda via pessoas me olhando com desprezo, como se eu fosse o pior lixo do universo(talvez eu fosse). Perdi as contas de quantas vezes imaginei mandando todos irem se catar, pedir demissão e sair de cabeça erguida daquele lugar, carregando toda a dignidade que eu ainda imagina que tinha, mas nunca aconteceu, eu precisava daquele emprego. Mas é como dizem por ai, quando menos espera a sua vida muda, e por quê comigo seria diferente? E realmente um dia aconteceu.
          Saindo tarde após um dia puxado de trabalho, bastante cansado e muito estressado, não queria ter que enfrentar um ônibus lotado para voltar pra casa, como morava razoavelmente perto, vinha e voltava todos os dias de bicicleta, uma das poucas coisas que fazia me sentir livre, aquela brisa suave que batia em meu rosto e emaranhavam em meus cabelos me fazia acreditar que minha vida um dia iria melhorar.À noite e incrivelmente tranquila, as vezes incomodada apenas pelas buzinas e barulho de ônibus e carros que quase me jogavam para fora da pista toda vez que passavam por mim, odiava aquelas latas velhas e suas fumaças fétidas, aquilo embrulhava o meu estomago.
          Para chegar em casa, eu tinha que passar por algumas ruas pequenas, que naquela hora da noite eram bastante escuras e confesso que ficava com um pouco apreensivo ao passar ali sozinho.
          Naquela noite, constantemente parei a bicicleta para olhar para trás e ver se alguém estava me seguindo. De momentos a momentos o meu coração parecia que iria vir a boca e batia tão rápido que pensei que ele iria rasgar o meu peito e soltar um grito muito alto com pedido de socorro, realmente aquela sensação e quietude estava me deixando assustado como nunca antes. Antes de voltar a pedalar, comecei a ouvir barulhos estranhos, talvez fosse só minha imaginação, mas como todo cuidado é pouco, resolvi apertar o passo.
          Os barulhos ficavam cada vez mais altos, cada vez mais perto, cada vez mais assustadores e eu já sentia como se alguém gemesse no pé do meu ouvido, quando percebi, não estava mais no caminho certo para casa, estava perdido, não reconhecia o local, larguei a bicleta no chão e corri pela rua procurando alguém que pudesse me orientar, não havia ninguém, mas os barulhos não paravam. As vezes eram passos, outras vezes correntes se arrastando, gemidos e sussurros ecoavam nas ruas, sabia que tinha uma imaginação fértil, mas já estava passando um pouco dos limites. Enfim, sai em uma praça arredondada, escura e mal iluminada por causa dos poucos postes do local, tinha uma fonte e uma escultura semi nua de mulher no meio, nunca tinha visto este lugar, tinha bancos, mas parecia que ninguém sentava ali fazia algum tempo, os canteiros de plantas ou onde deveria ter tido alguma planta, só passava de uma areia de cor amarelada, parecendo ser uma terra seca e morta, os prédios altos que rodeavam a praça, eram escuros, antigos e sombrios, parecia não ser habitado por alguém vivo. Quando mais eu olhava para praça, maior era meu calafrio, já tinha certeza de que não estava mais na minha cidade.
          De repente ouvi um barulho muito forte, um som de correntes e carne batendo ao chão. Olhei em direção ao som e vi uma curva que se levantava, era algo grande, mas não dava para ver direito por causa da falta de luz do local, estreitei os olhos procurando apurar a visão, mas só dei conta do que era ou do que não era, quando a coisa finalmente passou em baixo de um poste de luz. Uma coisa grande e pálida, cheia de feridas purulentas pelo corpo, com correntes amarradas presas aos seus braços as quais arrastavam ao chão, a criatura gemia como se sentisse dor, talvez sentisse pela quantidade de feridas no seu corpo, fiquei parado, completamente assustado com o que estava na minha frente a pouco mais de 10 metros, era a coisa mais nojenta que já tinha visto na vida e por um momento acreditei que estava tendo um pesadelo, mas quando a criatura me encarou e eu vi olhos vazios e completamente enegrecidos, percebi que não havia a minima possibilidade daquilo ser um pesadelo, sem emanar qualquer aviso, a criatura soltou um grito ensurdecedor. Naquele momento meu sangue gelou, mesmo se eu tentasse não conseguiria correr, estava apavorado, percebi que aquela coisa estava me seguindo por todo o caminho, os gemidos, passos e barulhos de correntes eram daquilo e não da minha imaginação. A coisa veio na minha direção e por incrível que pareça, era rápida, muito rápida apesar do seu tamanho descomunal de quase 2 metros, em poucos segundos chegou até mim e lançando a corrente em minha direção, pensei que iria morrer, mas meu instinto de sobrevivência(que não sabia que sequer existia) falou mais alto e saltei para o lado, rolando para baixo de um dos bancos e batendo a cabeça no cimento, fiquei completamente atordoado com a queda, só pude perceber que a criatura iria atacar novamente, e mais uma vez meu recém descoberto instinto fez com que eu me movesse novamente e no momento que sai de baixo do banco o monstro o quebrou com a corrente, transformando aquele assento em poeira e pedras que voaram em toda a direção. A criatura se virou e lançou novamente a corrente, consegui desviar mais uma vez e corri para trás do monstro e mais um momento de reflexo, ao ficar em suas costas, percebi que não era só feio, mas também nem um pouco cheiroso, é engraçado como pensamos um monte de besteiras quando se esta em uma situação de risco, pois a palavra que veio a minha mente foi: Desodorante. Mas apesar de eu conseguir desviar das suas primeiras investidas, eu não era um guerreiro, era só uma pessoa normal em uma situação inimaginável, e no momento que pensei assim, exitei e justamente nesse milésimo de segundo o monstro se virou me acertando finalmente com a corrente, voei por quase dois metros e bati de costas em um dos canteiros, fiquei sem folego, a criatura veio em minha direção e eu não conseguiria reagir, pudi ver o sorriso da morte, o que não era nada animador, estava perdendo a esperança junto com os meus sentidos, então ele apareceu. Um coroa, aparentemente uns 50 ou 60 anos, pulando por cima da minha cabeça com a mobilidade de um gato para enfrentar a criatura, tentei gritar para ter cuidado, mas minha voz me abandonou, mas o velho tinha seus truques, ele lançou uma bola do tamanho de uma de tênis que estourou quando fez contato ao chão, fazendo uma forte luz  e deixando a criatura cega e desesperada por um momento, o velho aproveitou a situação para atacar, sacando duas armas e descarregando tudo no monstro e em poucos instantes a criatura não passava de um pedaço de carne podre e com mais buracos no chão, foi tudo muito rápido.

          - Você esta bem? - Disse o velho. - Eu vi como você se saiu com aquilo, impressionante...

          Mas a partir disso, já estava ficando muito escuro, lembro de ouvir o velho falar.

          - Garoto não desmaie agora, aguenta mais um pouco.

          Já era tarde.

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