Batalha na escuridão.


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                                    Tiago - Capítulo 7.




                 Após alguns minutos na escuridão, meu corpo ficou pesado e finalmente minha mente se acalmou, passei a perceber o silêncio ao meu redor e eu não sentia medo, muito pelo contrário, eu estava calmo e sereno. Sabia que Pr. Durval estava comigo. Aos poucos fui desligando minha consciência de maneira quase que automática e mergulhando cada vez mais na escuridão do meu subconsciente, foi como cair dentro de um longo e escuro abismo, sentia como se meu corpo estivesse em queda livre, mas aquilo não era ruim, era quase libertador, como seu eu estivesse voando por alguns instantes.
O tempo passa diferente quando estamos desligados do mundo, o que na verdade não passou mais que alguns minutos, para mim passaram horas. Após um tempo a sensação foi se extinguindo, voltei a sentir meus pés no chão e a sensação de queda foi dissipando, abri os olhos lentamente e aos poucos voltei a ter consciência do meu ser e do que estava ao meu redor. Fiquei surpreso ao perceber que não estava mais na pequena sala e sim no cenário do meu sonho, um lugar sombrio coberto por nevoa, muito grande, não se via nada além de três ou quatro metros. Estar naquele cenário me trazia péssimas recordações, de imediato lembrei da minha esposa, o meu coração até então sereno e calmo, voltou a ser coberto com dor, culpa e agonia. Cai de joelhos e cobri rosto com as mãos, comecei a chorar descontroladamente, por quê eu estava ali?

                 - Durval? Durval? Me acorde! – Gritei o nome do padre, mas não obtive resposta, Onde estava aquele padre?

                Tentei levantar, mas não consegui, minhas pernas tremiam tanto que era difícil manter o equilíbrio. Respirei fundo e olhei ao redor tentando procurar um ponto de conforto, nada, só o vazio. Mas eu tinha que manter o controle de alguma maneira, gritei internamente o meu próprio nome, não podia deixar que o medo me dominasse. Forcei-me a levantar, minhas pernas não obedeciam, soquei com muita força um de meus joelhos na tentativa de ativar a adrenalina através da dor, consegui ficar em pé após alguns minutos.

                Eu sabia porque estava ali, sabia que tinha que enfrentar os meus medos e anseios. Fechei meus olhos, respirei fundo e procurei a calma dentro do meu ser. Nesse momento de autocontrole, passei a escutar uma voz, uma voz doce, delicada, mas ao mesmo tempo forte e decidida, eu conhecia aquele tom, era a voz da minha esposa. Eu tinha certeza que era sua voz, nunca iria esquecer do modo que falava, de como falava o quanto me amava baixinho em meu ouvido e quando cantava... Fiquei imerso nessas lembranças e quando me dei contato, estava cantando baixinho uma de suas musicas.

                “Às vezes é preciso cair para tocar ao chão, se perder do para paraíso, ficar sozinho na escuridão. Há tanta pedra no caminho e é tão difícil caminhar, e quando tem alguém é só querendo te derrubar, à ilusão não tem remédio se você não quer acordar, é preciso cair para poder levantar...”.

                 Meus olhos ficaram marejados, mais uma vez tive vontade de chorar, mas dessa vez não era tristeza ou por medo, era saudade, saudade dos momentos maravilhosos que passamos juntos, do seu lindo sorriso e olhar confortante, da doce risada que ecoava por toda nossa casa, calor de seu corpo nos dias frios e principalmente do seu confortante abraço. Pensar nisso me fez perceber o quanto eu estava errado.  Acreditei que estava sozinho esse tempo todo, que minha esposa tinha ido para longe, onde só poderia encontra-la depois da minha morte, eu estava errado, muito errado, ela sempre esteve comigo, ficou guardada no lugar mais seguro que eu conhecia, em um lugar tão protegido que nada e nem ninguém poderia tira-la de mim outra vez, estava tão protegida que eu mesmo esqueci desse lugar, mas foi necessário só abrir os meus olhos e procurar, procurar dentro do meu coração. Sua voz ficou mais alta e nítida, a coragem voltou a crescer em meu interior, sem abrir os olhos, andei na direção que vinha à voz que eu tanto conhecia e confiava e amava, não existiam mais preocupações, não existia mais medo, simplesmente fechei os olhos e andei.

                Não sei por quanto tempo, mas andei até parar de ouvir a voz, a atmosfera tinha mudado, estava mais pesada, senti a dificuldade de respirar, então abri os olhos, o cenário não havia mudado, mas a sensação com certeza era diferente. Afinal, estava sendo vigiado, ao olhar em volta com mais atenção, pude perceber duas esferas brilhantes me observando, eram olhos. Eu de quem era e porque estavam ali, a criatura que tanto me assombrava veio me pegar, mas dessa vez eu não tinha medo.
A criatura se aproximou de mim o máximo que pode, conseguir vir o seu semblante entre a escuridão, estava encurvada, com os quatros membros tocando ao chão, sentia aqueles olhos vazios me encarando, olhando todo o meu corpo, uma sensação de calafrio percorreu minha espinha. Quando pensei que iria ser atacado, a criatura voltou e se escondeu nas sombras, fiquei na dúvida durante alguns segundos, talvez tivesse ido embora? Breve engado.
                A criatura deu um salto nas minhas costas, se agarrando em mim, senti uma do lancinante no lado direito do pescoço, me joguei ao chão tentando desvencilhar de suas garras, segurei sua cabeça e puxei para frente do meu corpo arrancando suas garras da minha carne. A criatura caiu na minha frente, mas sem grande impacto, logo ficou em cima dos quatro membros e voltou a se esconder entre a nevoa e escuridão, antes de sumir por completo, pude perceber um sorriso sinistro em seus lábios, um sorriso de quem está em vantagem.

                - Você está brincando comigo seu desgraçado. - Gritei. – Você está brincando comigo? Você não vai me levar hoje.

                Senti um liquido quente e denso escorrer por meu pescoço, sangue, meu sangue. Passei os dedos na ferida e percebi que não era grande, mas doía bastante. Procurei me acalmar e tentar prever de onde viria o próximo ataque, mas era quase impossível para mim, não sabia técnicas de combate, então como poderia me defender? Comecei a pensar nos pontos iniciais de um combate.

1º Conhecer o terreno.
2º Conhecer o inimigo.
3º Saber como usar os dois primeiros ao meu favor.

                Após analisar minhas opções, percebi que estava em plena desvantagem, não conhecia o lugar, não conhecia o meu inimigo e não fazia a mínima ideia do que eu deveria fazer. Estava sem opções, então fiz o mais logico naquele momento. Corri. Se eu ficasse parado seria um alvo fácil, mas ficar em movimento não me daria muitas vantagens, mas me dava uma certa “proteção”, isso evitaria um novo ataque pelas costas e na melhor hipótese poderia ver a criatura se aproximando, afinal, ela teria que correr para tentar me alcançar, só esperava que ela não fosse tão rápida.
                Corri em qualquer direção, realmente não importava para onde eu iria, não haviam muros ou qualquer obstáculo nesse lugar, teria uma corrida livre, não corri mais de quinze metros antes da criatura me alcançar, ela corria em grande velocidade, nesse ritmo não teria problema para me alcançar. Ao olhar para trás, percebi que a criatura estava ao meu encalço, sem avisos a criatura saltou em minha direção, em um ato de reflexo, me joguei para a direita evitando o bote, a criatura voou errando-me por pouco centímetros e rolando na minha frente, levantei aos troncos e barrancos para continuar correndo, mas não fui rápido o suficiente, a criatura deu outro pulo e agarrou minhas duas pernas, fazendo-me cair. Em um movimento rápido, a criatura escalou meu corpo no chão até ficar totalmente sobre minhas costas, senti mais uma vez algo afiado rasgando as minhas costas várias vezes seguidas, gritei de dor e raiva, dei uma cotovelada na criatura tirando-a de cima de mim. Sem ao menos levantar, pulei para cima dela, ficando por cima, comecei a soca-la em qualquer lugar do corpo, a criatura se debatia, gritava, esperneava, mas não importava o lugar que eu batia ou a força que utilizava, a criatura não parecia sentir nada, o fato de se debater e gritar era porque simplesmente não queria ficar em desvantagem.

                - Por quê? Por quê você está atrás de mim? – Gritava o mais alto que podia. – Diz seu desgraçado, diz...

                 A criatura parou de se debater, parou de gritar, continuei socando com toda força, mas mesmo assim ela continuou inerte, percebi que a criatura estava me encarando, fiquei perplexo com a situação, a criatura passou a linga escura nos lábios e deu um pequeno sorriso de satisfação, ela estava gostando?
Nesse momento de indecisão, rapidamente a criatura deu-me uma cabeçada que me fez cair para o lado de dor, a criatura ficou em pé e agarrou minha cabeça pela nuca e em seguida bateu minha cabeça contra o chão diversas vezes e assim abrindo um rasgo imenso na minha testa. Fiquei ensopado de sangue, completamente tonto e estava perdendo os sentidos, a criatura me virou e subiu mais uma vez em mim, ficou me encarando com aqueles olhos negros e pele pálida, era o fim. A criatura aproximou seus lábios em meu ouvido direito e disse algo que não consegui entender.

                 - Não consigo entender o que você diz, não consigo entender nada. – Fiquei surpreso, minha voz saiu firme e forte.

                A criatura deu uma risada sombria, dessa vez ela aproximou seus lábios na minha orelha esquerda e disse com uma voz, rouca e sibilante.

                 - Eu... a.. Matei...

                Não havia dúvidas do que eu tinha ouvido, além daquilo conseguir a fala humana, tinha acabado de admitir que havia matado o meu bem mais precioso. Em um ato de ódio, joguei a criatura para o lado, com certeza aquilo a pegou de surpresa, pela primeira vez vi um semblante diferente em sua face, além da natural maldade que sobrepunha ela. Sem perder tempo, corri em sua dição e dei um chute naquele rosto imundo, o qual fez a criatura rolar um metro para trás, ela levantou rapidamente, mas eu já estava praticamente em cima, a levantei pela cintura, senti mais uma vez algo cortar minhas costas, mas naquele momento nada me importava, joguei a criatura mais uma vez e a chutei na barriga, minha alma estava repleta de raiva e ódio, queria vingança a qualquer custo. Dizem que a vingança cega o homem, talvez fosse verdade, pois só conseguia ver o meu alvo, nada mais importava. Meu esforço não servia de nada, não importava a onde eu batia, como batia ou que força usava, não parecia surtir efeito. Como uma cobra a criatura se arrastou pelo chão, escapando de mais uma investida minha e correu para minhas costas, tentei virar o mais rápido possível, mas não foi o suficiente para ela rasgar o meu calcanhar com suas garras e me fazer ir ao chão igual um saco de cimento, fiquei de joelhos e olhei para a criatura, ela tinha vencido.

...

                O ódio não deixa o homem apenas cego, aparentemente surdo também. Eu tinha tanta raiva que não conseguia nem ver ou ouvir nada além de mim, porém quando pensei que tudo estava perdido, que não teria maneiras de reagir, eu ouvi algo... Não apenas ouvi, eu senti, senti o meu coração bater. O tempo parecia desacelerar, a cada batida que sentia, ouvia uma palavra, aos poucos consegui entender o que era.
Mil cairão ao teu lado (Tum-Tum), e dez mil, à tua direita (Tum-Tum), mas tu não serás atingido (Tum-Tum) ... Eu estava ouvindo uma parte do salmo 91.

                - Repita comigo. – Ouvi uma voz. – Repita comigo.

                 Sem perceber, comecei a repetir.

                “Aquele que habita no esconderijo do altíssimo, à sombra do Onipotente descansará. Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei. ”

                A criatura parou de repente e começou a recuar... Estava com medo, continuei.

“Porque ele te livrará do laço do passarinheiro e da peste perniciosa, te cobrirá com as suas penas, e de baixo das suas asas estarás seguro; a sua verdade é escudo e broquel. ”

                 A criatura começou a gritar descontroladamente. Gritava em diversas línguas, inglês, português, hebraico e outras que nunca ouvi falar. Gritava para que eu parecesse, percebi que a criatura não conseguia correr, parecia presa ao chão. Levantei e recitei mais alto ainda.

                 “Não temeras espanto noturno, nem seta que voe de dia, nem peste que ande na escuridão, ou mortandade que assole ao meio-dia. Mil cairão ao teu lado, e dez mil, à tua direita, mas tu não serás atingido. Somente com os teus olhos olharas e verás a recompensa dos ímpios. ”

                 A criatura se debatia, gritava, rolava, xingava, não importava o que ela tentasse fazer, a minha voz soava como chicotadas a cada palavra lançada ao ar. Senti algo quente me envolver, olhei para o lado e a vi; minha esposa estava ao meu lado recitando aquelas palavras junto comigo, ela me olhou serenamente e juntos aumentamos cada vez mais o tom de nossas vozes.

                “ Porque tu, ó Senhor, és o meu refúgio! O Altíssimo é a tua habitação. Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegara à tua tenda. Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos. Eles te susterão nas suas mãos, para que não tropeces com o teu pé em pedra. Pisaras o leão e a áspide; calcaras os pés o filho do leão e a serpente. Pois que tão encarecidamente me amou, também eu o livrarei; pô-lo-ei num alto retiro, porque conheceu o meu nome. Ele me invocara, e eu lhe responderei; estarei com ele na angustia; livrá-lo-ei e o glorificarei. Dar-lhe-ei abundancia de dias e lhe mostrai a minha salvação. ”

                Ao terminar, percebi que a criatura não mais gritava, estava inerte ao chão, não foi necessário me aproximar para perceber que estava definitivamente morta. Não sei ao certo o que aconteceu, mas ela não resistiu ouvir aquele salmo, entendi que a melhora arma contra as trevas e utilizar a luz. Ler aquela escritura não só venceu a criatura, como também começou a transformar aquele lugar, tudo estava se transformando, a nevoa se dissipou e a escuridão começou a clarear, em um piscar de olhos, tudo era claro e vivo, ao olhar em volta conseguia ver vários tipos de cores, já não estava entre à escuridão.  Procurei em volta por minha esposa, o medo de que eu a tivesse imaginado era muito grande, mas ela ainda estava ali.

                 - Oi. – Ela me disse.
                 - Oi. – Respondi sem conter a emoção. – Você realmente está aqui?
                 - Sim, estou. – Respondeu.
                 - Mas isso é impossível, eu enterrei você.
                 - Por quê? Por quê é impossível?

                 Ela encostou a sua mão em meu rosto e pude sentir seu toque suave, a abracei com tanta força que poderia a ter esmagado, mas não importava, não a deixaria partir nunca mais. Em certo momento ela puxou meu rosto em encontro ao seu, seus olhos estavam molhados, o meus também estavam, ficamos nos encarando durante algum tempo, até que em certo momento quebrei o silencio.

                 - Por que você partiu? Por quê você foi embora e eu tive que ficar sozinho.
                 - Silencio, nem você ou eu poderíamos ter feito alguma coisa para mudar isso. – Disse em um tom sereno. – Simplesmente é assim que devia acontecer.
                 - Me perdoe por não ter acreditado em você, eu devia ter ouvido.
                 - Eu não tenho o que perdoar, você não teve culpa de nada, tudo aconteceu da maneira que deveria ser. – Disse. – Você não pode continuar se martirizando com isso, eu quero que você viva, que você lute, um dia nos encontraremos de novo.
                 - Eu não quero esperar, que você fique comigo para sempre.
                 - Não posso, não pertenço mais ao seu mundo, você sabe disso. Além do mais, você tem algo importante para fazer.
                 - Não posso perder você outra vez.- Não conseguia controlar a emoção da minha voz.
                 - Meu amor eu nunca sai do seu lado... Mesmo quando você não me via.

                 Ela aproximou os lábios do meu ouvido e disse o que eu tanto queria ouvir.

                 - Eu te amo...
                 - Eu também te amo...

                 - Rapaz é muito bom saber que você me ama, mas nós não estamos aqui para que você se declare a mim. – Disse Pr. Durval.

                 Olhei assustado e percebi que estava novamente na sala escura, olhei para o relógio e percebi que não tinha passado mais que cinco minutos. Levantei da cadeira e fui em direção a porta.

                 - Está desistindo garoto? – Falou o padre.
                 - Não, mas já encontrei o que procurava.

                 Fechei a porta atrás de mim.

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One Response to “Batalha na escuridão.”

  1. Nossa... emocionante! : ) É possível sentir cada momento das cenas acontecendo. Foi um capítulo perfeito!

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